O Renascimento do Universo
Janine Milward
Dentre
as várias lendas que remontam ao dilúvio, existe uma que narra a estória de um
homem e uma mulher que deram início ao universo, como o conhecemos.
O
dilúvio havia arrasado tudo, no céu e na terra. Não restara nada, a não ser o
barro que surgia enquanto as águas iam escorrendo e desaparecendo, baixando,
buscando os vales.
O
homem e a mulher salvaram-se porque se refugiaram no cume da mais alta
montanha. Eles eram tudo o que restou do Yang e do Yin,
do Tai Chi, da multiplicidade de existências do universo anterior.
E
todo aquele Vazio de existências era o Uno, o princípio inicial de tudo o que
haveria de ser re-criado a partir de então.
O
que poderia criar o universo manifestado?
A
inspiração soprada pelo Absoluto do universo não-manifestado.
O retorno é o movimento do Caminho
A suavidade é a atuação do Caminho
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não-existência (1)
Do
alto da montanha, o homem, que chamaremos de Criativo, e a mulher, que
chamaremos de Receptivo, sentaram-se para primeiramente contemplarem o
vir-a-ser, o início de um novo processo de criação
Podemos
dizer, sim, que esta estória se passa no Planeta Terra, nossa terra.
K'un, O Receptivo, o Abranger, O
Vazio, A Não-Luz, tomou do barro, moldando com suas mãos ágeis as
estrelas que foram colocadas no céu, uma a uma, tantas que nem deu para
contar.................................................................................................................................................................................menos
uma, que deixou na Terra, a seu lado.
Ch'ien, O Criativo, A Luz, permanecia
sentado em seu silêncio interior, em profunda meditação, criando assim a
constância da luz que permite a criação existir.
Dessa
maneira, a cada estrela que aparecia no céu, Ch'ien, O
Criativo, criava nela A Luz que a fazia novamente resplandecer; e logo
logo, toda a imensidão do universo brilhava com o pisca-pisca das estrelas...
K'un, A Terra, tornou-se a Abrangência do
próprio Vazio - o Yin Supremo.
Ch'ien, O Céu, tornou-se o Criativo
da Luz que preenche esse Vazio - o Yang Supremo.
Através
do Vazio, encontra-se A Luz
Do
barro que sobrou, K'un, A Terra, começou a fazer seus próprios
filhos... E usou um pouquinho do barro daquela estrela que havia ficado na
terra, que não fôra para o céu, para fazer o coração dos seres e de toda a
natureza.
K'un,
A Terra, quis
dar a seus filhos o sentimento de poderem olhar para as estrelas e o resto da
natureza do universo como se fizessem parte desse todo.... e fazem, de coração
e mente.
Assim,
em nosso coração, bate aquele minúsculo pedaço de barro – que é a nossa parte
nas estrelas e no universo.
O que quero que me distinga dos demais
é valorizar o alimentar-se da Mãe. (2)
Assim,
surgiram o Céu e a Terra e toda a criação.... Do Mundo da Não-Manifestação ou
Céu Anterior, Wu Chi, surge o Mundo da Manifestação ou Céu
Posterior, Tai Chi.
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe das dez mil coisas (3)
K'un,
A Terra, identificava-se com
a multiplicidade, a amplidão, o Espaço, o Vazio do Espaço. Ch'ien, O
Céu, identificava-se com a unidade, a continuidade, o Tempo.
O Céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da
terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros. (4)
Da
Não-Luz e da Luz – dessa cópula do universo em seus primórdios – o Yin foi
se mesclando ao Yang, o Yang foi se mesclando
ao Yin....
A
Luz constante de Ch'ien, O Céu, O Criativo, e a criação duradoura
de K'un, A Terra, O Receptivo, surgem do Tao.
Tao
é o Caminho.
O Caminho gera o Um
O Um gera o dois
O dois gera o três
O três gera os dez mil seres.
Os dez mil seres se cobrem com o obscuro e abraçam
o claro.
E se harmonizam através do esplêndido sopro. (5)
O
Tao gera o Um, o Princípio Primordial, O Sopro do Tao, a energia do Absoluto.
O
Um – advindo do Absoluto – gera o Dois, o Tai Chi: O Yang,
o claro, e o Yin, o obscuro.
O
Dois gera o Três: O Céu, A Terra e toda a natureza sintetizada no Homem.
O
Céu revela o Princípio Primordial, a Terra revela o Tesouro do Espírito, A
Sagrada Leitura; o Homem revela o Mestre, aquele que retorna ao Princípio
Primordial através do Tesouro do Espírito.
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imagem extraído de https://www.facebook.com/SociedadeTaoistaDoBrasil |
O
Princípio Primordial é o Tao: A Virtude, Te, é o Tesouro do Espírito. Assim, o
Homem, o Mestre, é aquele que busca o Tao através de sua ação, a virtude, Te.
Dessa maneira, o Três gera os dez mil seres, o universo.
Os dez mil seres fazem-se mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
E justamente por realizar sem apego
Não passam (6)
Com um abraço estrelado,
Janine Milward
Texto extraído do Capítulo 1 do meu Livro O Fio da
Meada, Primeiro Volume
– Os Conceitos Fundamentais do I Ching, o
Livro das Mutações ©1997
Tao
Te Ching - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tsé
1. Capítulo 40
2. Capítulo 20
3. Capítulo 1
4. Capítulo 7
5. Capítulo 42
6. Capítulo 2
Tradução
de Wu Jyh Cherng - Editora Ursa Maior, SP. Atualmente este Livro é
publicado pela Editora Mauad, São Paulo, Brasil